Residência de Arte - Ciclo Ecce Homo, Ateliê Beco
- 4 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de abr. de 2023
Lisboa | 2020
O que pretendi fazer nesta residência, foi desenrolar um fio sobre a questão principal do filme-Canções do Segundo Andar e o propósito do autor- Roy Andersson. Isto é, o que significa ser humano, com toda a sua complexidade, fragilidade e controvérsia.
Em torno dessa complexidade (uma malha densa não muito clara de ligações de afetividade e existenciais entre os atores) que o filme provoca no espectador, que no meu caso, deixou-me
desconfortável.
Á medida que ia fazendo esta prática de desenho e de escrita, num tempo estipulado por mim, ia tornando a minha experiência com o filme, mais clara e pacificadora.
Acabou por ser muito interessante para o meu processo criativo, ocorrer esta coincidência de
conteúdos entre o mote do trabalho assemelhar-se tanto com o momento que estamos a
viver:
. Uma crise económica;
. Uma paragem forçada;
. Um período de confinamento;
. Uma perca de trabalho e de direção;
. Etc.
Nota:
Este trabalho não está e não vai ficar completo.
Já o realizador falava sobre as suas páginas brancas e que gostava de incluir essas páginas na estrutura do seu filme, para que algo de novo, de inesperado pudesse acontecer. Vazios que entram numa tela cheia, tela do cinema como numa tela de pintura que não fica fechada ou terminada e que no futuro pode ser continuada.
O filme evoca a História e o Passado, mais especificamente erros que são mágoas cometidas
no passado individualmente e coletivamente. E que o caminho é olhar para os erros e diria
mais detetá-los, corrigi-los como se de um método científico se tratasse.
(…)
Muito desse processo de regeneração das vítimas da História que sofreram traumas (como
abandono, condenação á morte, …), passa pela construção de ambientes de segurança como de empatia com os outros. Caso isso, também não seja feito, essas pessoas podem passar por momentos da vida ou até totalmente, em sofrimento.
O filme retracta isso.
É preciso fazer um caminho de aprendizagem e de perceção. Mais especificamente, o que foi
feito, porque foi feito, para assim entrar num processo de reconciliação, de salvamento e clareza.
Processo que implica tempo e envolvimento.
(…)
Outra questão importante deste filme, da qual fui sensível, foi a sensação de estagnação, uma espécie de prisão. Preso de alguma maneira.
(…)
Um espaço e tempo de limbo e de ilusão, que aparece, hoje de um modo coletivo criando
sensações diferenciadas.
(…)
Por fim ainda faço referência á passagem de um tempo silencioso que ocorre e passa
despercebido sobre o teu corpo e o choque que isso pode provocar em ti, quando é percebido e confrontado socialmente.
Durante a residência, esta proposta foi trabalhada, sobre este modo, onde o tempo se
desdobra, em vários registos.
A estagnação é muito visível no filme, em planos como o engarrafamento constante do
trânsito, os interiores de casas, de escritórios, como de hotéis, em que as figuras se encontram
sentadas em frente de uma janela ou deitadas sobre uma cama, entre outras imagens.
Uma das paragens mais visíveis do filme de Roy Andersson é um movimento de apatia, uma
prisão criada por cada personagem, que entra numa espécie de casulo, como um lugar
também de introspeção, de recolha, de estar consigo próprio. Apesar de serem pontos
diferentes, enquanto a prisão pode levar a um ponto de inércia e destruição, o casulo é um
espaço e tempo de reconciliação, de diálogo com os próprios espectros, ou chamados mortos-vivos e de construção.
A imagem visual de um casulo como um invólucro de filamentos construídos pela larva de um
bicho-da-seda como de outros insetos assemelha-se a um lugar de criação, próprio de um
ateliê.
Volto assim ao início, ao ateliê, onde este convite começou.
Ângela Dias
Maio de 2020


















