"Céu Limpo"
- 28 de jun. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 19 de mai. de 2023
Galeria Sá da Costa | Lisboa | 2021
Canção da terra por José Sousa Machado
“A terra não é um ser morto, inerte e mudo, mas um eloquente ser vivo, um
organismo vivo. A própria pedra vive.”
Byung-Chul Han (in ‘Louvor da Terra‘)
Esta exposição de Ângela Dias, de seu nome “Céu limpo”, entre tantas outras ‘lições’ que dela possamos retirar, é um exaltante hino de celebração da vida, um ditirambo de louvor à natureza, à Terra Mãe e sua fragrante beleza. Tal como num jardim afortunado, também nestes guaches aguarelados e carvões de Ângela Dias, os galhos, troncos, folhas, flores e frutos, irrompem do ignoto mistério que todo o universo encerra, desenhando no espaço do papel melodias coloridas e entrelaçando-se aleatoriamente em florações deslumbradas, submetidas apenas ao primado da sua incessante busca de luz.
Do cimo altaneiro do seu atelier, situado nos arrabaldes de Lisboa, a artista convive diariamente com o(s) ritmo(s) sucessivo(s) do mundo natural; cada planta transporta em si uma consciência particular e muito marcada do ‘tempo’, cada flor reclama de nós uma diferente relação meditativa. As colinas ondulam persistentemente ante os seu olhar de atalaia, despidas e sombrias no inverno e na primavera atapetadas do amarelo e branco luminosos das flores silvestres. No jardim, ali mesmo à sua beira, árvores de fruto diversas impregnam os olhos e a mente de Ângela Dias com a sua exuberante coreografia ao som do vento, proporcionando-lhe uma inesgotável fonte de experiências sensoriais - “A arte imita a natureza, porque a natureza é já uma arte“, escreveu Aristóteles (Física II).
É neste ambiente ‘bucólico’, neste chão rico em sensibilidade e materialidade, mas também em experiência espiritual transformadora (metanóia), que inscrevo a atual exposição de desenho de Ângela Dias, “uma exposição de cariz documental e narrativo”, afirma a artista, complementada “com literaturas soltas, criando ambientes afetivos e sensoriais.” – literaturas soltas, de cariz mitológico e/ou simbólico.
Todavia, este carácter documental a que Ângela Dias se refere não circunscreve o seu labor artístico à estrita reprodução plástica de um modelo natural que lhe seja exterior, ela não realizou para esta mostra desenhos de observação; imersa ela própria nesse magma fértil e inesgotável de sensações e camadas de memória sobrepostas, a artista, ela mesma configurada no barro ontológico primevo, transporta o viço do mundo natural para o terreno da arte, inventando uma linguagem correlativa à da natureza que a artista conhece, um
idioma erguido sobre a observação e o seu posterior esquecimento – “Este gesto, este abraço invertido da memória e do esquecimento, que conserva intacta, no seu centro, a identidade do que é imemorial e inesquecível, é a vocação” (Giorgio Agamben in ‘Ideia da vocação’) ou, como refere o Livro Bahir, “as potências de Deus crescem pela Criação adentro como uma árvore, alimentada junto às águas da Sophia” (ct. por Gershom Scholem, ‘A Cabala e a Mística Judaica’).
OBRAS ADQUIRIDAS

EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL | "CÉU LIMPO" | 2014
"As Árvores Não Morrem"
Material: tinta-da-china e aguarela s/papel
Medidas: 42 x 59 cm
Notas: este desenho faz parte de uma série com este mesmo título

EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL | "CÉU LIMPO" | 2014
"As Árvores Não Morrem"
Material: tinta-da-china e aguarela s/papel
Medidas: 42 x 59 cm

EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL | "CÉU LIMPO" | 2014
"Picking and Shining"
Material: tinta-da-china, aguarela e acrílico s/papel
Medidas: 59 x 126 cm




















