"Céu Limpo"
Atualizado: 19 de mai. de 2023
Galeria Sá da Costa | Lisboa | 2021
Canção da terra por José Sousa Machado
“A terra não é um ser morto, inerte e mudo, mas um eloquente ser vivo, um
organismo vivo. A própria pedra vive.”
Byung-Chul Han (in ‘Louvor da Terra‘)
Cartaz da Exposição Série "As árvores não morrem" "Fragâncias II" Parede de Desenhos "Inverno" "Diálogo com Albreach Durer" "Fragâncias I" "Picking and Shining" Série "Casca" Diário Gráfico 2020
Esta exposição de Ângela Dias, de seu nome “Céu limpo”, entre tantas outras ‘lições’ que dela possamos retirar, é um exaltante hino de celebração da vida, um ditirambo de louvor à natureza, à Terra Mãe e sua fragrante beleza. Tal como num jardim afortunado, também nestes guaches aguarelados e carvões de Ângela Dias, os galhos, troncos, folhas, flores e frutos, irrompem do ignoto mistério que todo o universo encerra, desenhando no espaço do papel melodias coloridas e entrelaçando-se aleatoriamente em florações deslumbradas, submetidas apenas ao primado da sua incessante busca de luz.
Do cimo altaneiro do seu atelier, situado nos arrabaldes de Lisboa, a artista convive diariamente com o(s) ritmo(s) sucessivo(s) do mundo natural; cada planta transporta em si uma consciência particular e muito marcada do ‘tempo’, cada flor reclama de nós uma diferente relação meditativa. As colinas ondulam persistentemente ante os seu olhar de atalaia, despidas e sombrias no inverno e na primavera atapetadas do amarelo e branco luminosos das flores silvestres. No jardim, ali mesmo à sua beira, árvores de fruto diversas impregnam os olhos e a mente de Ângela Dias com a sua exuberante coreografia ao som do vento, proporcionando-lhe uma inesgotável fonte de experiências sensoriais - “A arte imita a natureza, porque a natureza é já uma arte“, escreveu Aristóteles (Física II).
É neste ambiente ‘bucólico’, neste chão rico em sensibilidade e materialidade, mas também em experiência espiritual transformadora (metanóia), que inscrevo a atual exposição de desenho de Ângela Dias, “uma exposição de cariz documental e narrativo”, afirma a artista, complementada “com literaturas soltas, criando ambientes afetivos e sensoriais.” – literaturas soltas, de cariz mitológico e/ou simbólico.
Todavia, este carácter documental a que Ângela Dias se refere não circunscreve o seu labor artístico à estrita reprodução plástica de um modelo natural que lhe seja exterior, ela não realizou para esta mostra desenhos de observação; imersa ela própria nesse magma fértil e inesgotável de sensações e camadas de memória sobrepostas, a artista, ela mesma configurada no barro ontológico primevo, transporta o viço do mundo natural para o terreno da arte, inventando uma linguagem correlativa à da natureza que a artista conhece, um
idioma erguido sobre a observação e o seu posterior esquecimento – “Este gesto, este abraço invertido da memória e do esquecimento, que conserva intacta, no seu centro, a identidade do que é imemorial e inesquecível, é a vocação” (Giorgio Agamben in ‘Ideia da vocação’) ou, como refere o Livro Bahir, “as potências de Deus crescem pela Criação adentro como uma árvore, alimentada junto às águas da Sophia” (ct. por Gershom Scholem, ‘A Cabala e a Mística Judaica’).
OBRAS ADQUIRIDAS

EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL | "CÉU LIMPO" | 2014
"As Árvores Não Morrem"
Material: tinta-da-china e aguarela s/papel
Medidas: 42 x 59 cm
Notas: este desenho faz parte de uma série com este mesmo título

EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL | "CÉU LIMPO" | 2014
"As Árvores Não Morrem"
Material: tinta-da-china e aguarela s/papel
Medidas: 42 x 59 cm

EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL | "CÉU LIMPO" | 2014
"Picking and Shining"
Material: tinta-da-china, aguarela e acrílico s/papel
Medidas: 59 x 126 cm
